Dra. Sofia Raposo
Especialista em Ginecologia/Obstetrícia
Sub-especialista em Ginecologia Oncológica
Master em Medicina Estética, Regenerativa e Anti-envelhecimento
Assistente Hospitalar Graduada de Ginecologia
Serviço de Ginecologia - IPO - Coimbra
Ofidia Clinic Coimbra
A Dra. Sofia Raposo, especialista em Ginecologia e Ginecologia Oncológica, partilhou connosco informações valiosas sobre a tecnologia laser e o seu impacto na saúde íntima feminina.
1. Para dar início a esta conversa, começo por perguntar o que é a tecnologia laser?
A tecnologia LASER é baseada na emissão de um feixe de luz altamente concentrado, coerente e direcional. A palavra LASER é, na verdade, um acrônimo em inglês: L.A.S.E.R. = Light Amplification by Stimulated Emission of Radiation (Amplificação da Luz por Emissão Estimulada de Radiação). A luz do LASER é monocromática (tem uma única cor ou comprimento de onda); coerente (as ondas de luz estão apenas numa fase, o que dá ao LASER a sua precisão) e direcional (o feixe é muito estreito e espalha-se muito pouco com a distância).
Existem diversos tipos de laser, dependendo do meio utilizado: laser sólido (neodímio; érbio; hólmio, etc..); laser gasoso (Dióxido de Carbono - CO2; He-Ne); laser líquido (corante) e laser semicondutor (Diodo). A variabilidade dos parâmetros, permite utilizá-los para diferentes aplicações. O laser CO2 é um dos lasers mais potentes, pode ser utilizado de forma contínua ou pulsada
Na medicina, o laser constitui uma verdadeira ferramenta de precisão. É utilizado de diferentes formas, dependendo da intensidade do feixe, do tipo de tecido, e da finalidade do tratamento. Estas interações podem resultar em efeitos térmicos, fotoquímicos ou mecânicos, permitindo uma variedade de aplicações médicas.?
O laser apresenta diversas vantagens na medicina: maior precisão nos procedimentos; menor risco de hemorragia; recuperação mais rápida; menor risco de infeção; permite efetuar tratamentos em regime de ambulatório, na maioria dos casos sem necessidade de anestesia.
2. O que é exatamente o laser Monalisa Touch ® e quais as suas indicações clínicas?
O MonaLisa Touch ® é uma tecnologia médica avançada que utiliza um laser fracionado de dióxido de carbono (CO?) para tratar alterações na zona íntima da mulher, particularmente associadas à menopausa, pós-parto e patologias vulvares e vaginais. Trata-se de um procedimento minimamente invasivo, realizado em ambulatório, sem necessidade de anestesia e com um tempo de recuperação muito reduzido. Através da emissão de micro-feixes de luz, o laser atua de uma forma delicada na mucosa vaginal e vulvar, estimula a produção natural de colagénio e promove a regeneração tecidular, melhora a elasticidade e a hidratação da mucosa. O objetivo é restaurar a tonicidade, elasticidade e hidratação da zona tratada.
As principais indicações clínicas para o uso do MonaLisa Touch ® incluem:?
- Síndrome geniturinária da menopausa (SGM): caracterizada por sintomas como secura vaginal, irritação, prurido e dor durante as relações sexuais, resultantes da diminuição dos níveis de estrogénio após a menopausa.?
- Atrofia vaginal: afeta mulheres na pós-menopausa, bem como, aquelas que passaram por tratamentos oncológicos que induzem a menopausa, como quimioterapia ou radioterapia.?-
-Incontinência urinária ligeira: alguns estudos sugerem melhorias na tonicidade dos tecidos peri-uretrais, contribuindo para a redução da incontinência urinária de esforço.?
- Reabilitação pós-parto: para mulheres que apresentam alterações na mucosa vaginal após o parto, o tratamento pode ajudar na recuperação da elasticidade e hidratação do tecido vaginal.?
Os estudos clínicos têm demonstrado melhorias significativas na sintomatologia após o tratamento com o MonaLisa Touch ®.
3. Quais são os benefícios esperados do tratamento com laser vaginal?
Os benefícios incluem:
- Redução da secura e irritação;
- Melhoria da lubrificação natural;
- Redução do grau de incontinência urinária;
- Relações sexuais mais confortáveis e com maior satisfação;
- Melhoria da flacidez e elasticidade;
- Maior qualidade de vida.
4. O tratamento é doloroso ou desconfortável?
O tratamento é rápido – normalmente dura cerca de 20 a 30 minutos – e a maioria das mulheres apenas sente um ligeiro desconforto, um leve calor local ou uma sensação “tipo picada” a nível vulvar.
5. Quantas sessões são normalmente necessárias e com que frequência devem ser feitas?
Habitualmente, são recomendadas 3 sessões, espaçadas por cerca 4-5 semanas, seguidas de uma manutenção anual, conforme a avaliação médica efetuada.
6. Há necessidade de manutenção após a primeira série de sessões?
Depois da primeira série de sessões é recomendado fazer uma sessão de manutenção a cada 12-18 meses. Isto porque o envelhecimento dos tecidos continua, e a produção de colagénio estimulada pelo laser vai diminuindo com o tempo.
7. Quanto tempo leva para se notar melhora nos sintomas (secura vaginal, dor nas relações, etc.)?
A grande maioria das mulheres nota alguma melhoria após a primeira sessão. Porém, a melhora mais significativa costuma ocorrer entre a segunda e a terceira sessão. A resposta varia, sempre, um pouco de pessoa para pessoa.
8. Os resultados são definitivos?
O laser trata os sintomas, mas não elimina a causa subjacente (que geralmente é hormonal ou relacionada ao envelhecimento natural dos tecidos).
Por isso, com o tempo, os sintomas podem voltar a aparecer se não for feita a manutenção.
No caso da oncologia, reservamos algumas questões mais direcionadas.
1. O tratamento com laser vaginal é seguro para pacientes que tiveram cancro ginecológico ou de mama?
Sim. Estudos recentes mostram que o laser vaginal CO? fracionado, como o MonaLisa Touch ®, é seguro para mulheres sobreviventes de cancro ginecológico ou da mama, especialmente naquelas que sofrem de sintomas vaginais decorrentes da insuficiência hormonal e não podem fazer reposição hormonal. O procedimento atua localmente, sem efeitos sistémicos, e é considerado uma opção eficaz e muito segura para melhorar a qualidade de vida destas doentes. E não nos podemos esquecer que a tecnologia laser é utilizada para o tratamento de diversos cancros!
2. Existem contraindicações específicas para pacientes oncológicas?
As principais contraindicações incluem a presença de doença oncológica ativa, lesões suspeitas ou não tratadas do colo do útero, vagina ou vulva, e infeções ginecológicas ativas.
3. O laser pode ser feito durante tratamentos como quimioterapia, hormonoterapia ou outro, ou tratamento deve aguardar-se?
Durante a quimioterapia, geralmente, o procedimento é adiado devido ao maior risco de infeção e à imunossupressão. Em doentes sob hormonoterapia, seja sob tamoxifeno ou inibidores da aromatase, o laser pode ser utilizado de forma segura, mas sempre após avaliação médica!
4. Há riscos de estimular células cancerígenas com este tipo de tratamento?
Não existem evidências científicas que associem o tratamento com o laser CO? à ativação de células cancerígenas ou ao aumento do risco de recidiva. O laser atua apenas na superfície da mucosa vaginal, promovendo regeneração tecidual, sem ação hormonal ou sistémica. É, portanto, um tratamento totalmente seguro!
5. Há estudos científicos que comprovam a eficácia e segurança do Monalisa Touch ® em sobreviventes de cancro?
Sim. Diversos estudos publicados em revistas científicas, como a Menopause, Journal of lasers in Medical sciences, Journal of Clinical Oncology, demonstraram que o tratamento com o MonaLisa Touch ® melhora significativamente a secura vaginal, a dor nas relações sexuais (dispareunia) e outros sintomas da síndrome geniturinária da menopausa em sobreviventes de câncer, com alta taxa de satisfação e perfil de segurança favorável.
6. Existem efeitos colaterais ou riscos associados ao procedimento?
Como referi anteriormente o tratamento é muito seguro!
Os efeitos colaterais são, em geral, muito leves e transitórios.
Pode ocorrer uma pequena hemorragia, edema local, ardor ou desconforto nas primeiras 24 a 48 horas. Complicações mais graves, como infeções, são muito raras e estão, geralmente, relacionadas com o não seguimento do cuidados pós-procedimento.
7. Quanto tempo leva para se notar melhora nos sintomas (secura vaginal, dor nas relações, etc.)?
A maioria das doentes relata melhora significativa já após a primeira ou segunda sessão. Contudo, os efeitos máximos costumam ser percebidos entre um a três meses após a conclusão das 3 sessões iniciais de tratamento.
8. O tratamento é comparticipado por planos de saúde?
Atualmente, na maioria dos países, o tratamento com laser vaginal não é abrangido pelos planos de saúde, sendo considerado um procedimento, infelizmente, não essencial. No entanto, algumas seguradoras podem dar um reembolso parcial mediante solicitação.
9. O laser pode ser combinado com outras terapias (como lubrificantes, fisioterapia pélvica ou medicações)?
A abordagem terapêutica combinada é recomendada para otimizar os resultados clínicos. O tratamento com laser vaginal de CO? fracionado pode e deve ser complementado com outras intervenções que promovam a regeneração e a funcionalidade da mucosa vaginal. Entre estas, destacam-se o uso regular de lubrificantes e hidratantes vaginais, que melhoram a hidratação local e reduzem as queixas durante o ato sexual. A fisioterapia do pavimento pélvico é igualmente importante, contribuindo para a melhoria da tonicidade muscular, da vascularização e da sensibilidade da região genital. Esta abordagem integrada visa não apenas o alívio sintomático, mas também a promoção de uma reabilitação funcional mais abrangente e duradoura.
A combinação de tecnologia avançada e cuidado multidisciplinar tem permitido às mulheres sobreviventes de doenças oncológicas, recuperar a sua qualidade de vida íntima de forma segura e não invasiva.
Gostaria de agradecer a oportunidade de partilhar estas informações, sublinhando a importância de oferecer às sobreviventes de cancro opções terapêuticas que respeitem a sua segurança e promovam o seu bem-estar global.